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Um Conto de Movimento


Se tem uma coisa que entendemos bem aqui na marca é que a inspiração pode vir dos lugares mais inusitados possíveis. Andando na rua, prestando atenção em alguém no metrô, assistindo desenho animado, tomando um sorvete na praça. Todo tipo de inspiração deve ser bem recebida, pois desse impulso criativo podem sair as melhores obras primas. Ficamos muito felizes em ser inspiradas por coisas incríveis, inclusive por vocês e pelas necessidades femininas de ser/estar confortáveis na sociedade. E ficamos mais felizes ainda em saber que também somos fonte de inspiração para vocês. Dá um quentinho no coração. 


Nossa amiga Nadi foi além e se inspirou na coleção Movimento para escrever um conto incrível que nos deixou sem ar de tanta intensidade em forma de palavras. Antes de ler o texto, vamos conhecer um pouco Nadieli:


"Olá! Eu sou a Nadieli, mas pode me chamar de Nadi. Nunca consigo decidir qual das minhas versões definem melhor o conjunto da obra. De teimosa nata à indecisa de profissão, venho do time das #aquarianex com ascendente em Touro. Estudo Publicidade e trabalho com Comunicação, embora já tenha flertado em alguns outros quintais. Tenho não uma queda, mas um penhasco inteiro por filmes/livros de terror. Taróloga nas horas vagas, amo falar, e falar, e falar até me gastar. Especialmente se tiver chá e chocolate na jogada. Acima de tudo isso, sou totalmente embalada pela escrita. Nasci de um tanto de verbo e um bocado de adjetivos. As palavras me guiam, eis minha única certeza. De resto, prefiro ser sempre de lua, mudando de fase em fase, caminhando de rua em rua." 


Agora, sem mais delongas, vamos ao conto! Pega o café, descansa aí onde você tiver e se prepare <3 Boa leitura!

 

Cabeça de Vento 

Qual era a regra de ouro? 

Desde muito cedo, Ágata aprendeu que a regra de ouro era andar conforme a banda pedia. O que ela pouco imaginava é que seriam bandas, no plural. As músicas até podiam ter ritmos diferentes, mas a letra era sempre a mesma: se você se comportar direitinho, vai dar tudo certo, viu? 

Ela encarou bem essa jornada até um certo estágio da vida. Caminhou em linha reta, tirou as melhores notas no primário, participou ativamente dos projetos sociais, e musicais, e artísticos-regionais da sua cidade. Melhor colocação no vestibular, universidade super cotada. Suou frio na graduação, deu sua alma e a da próxima encarnação nos estágios. Ágata se formou, entrou pro mercado de trabalho e então… 

Então nada. Nada e tudo ao mesmo tempo. 

Quando finalmente parou por um segundo para encarar o mundo ao seu redor, ela descobriu que não havia absolutamente qualquer coisa que fizesse diferença. Isso porque ela continuava sendo inferiorizada pela família — jamais satisfeita, independente do quanto Ágata arrancasse de si para dar aos outros —, massacrada em um escritório injusto, desintegrada na relação sem sentido há tanto tempo. 

É claro que a crise veio. Ora, se tinha seguido todas as regras de ouro, como poderia estar em uma estrada de cinzas? Ninguém sequer mencionou a possibilidade disso acontecer. 

De todas as pessoas dos seus círculos sociais, a única cuja energia ainda parecia capaz de aquecer-lhe era de sua amiga, Morgana. Ela sim, vivia uma vida fora de qualquer linha possível, estritamente na curva. Dançava nas encruzilhadas, rodopiava em esquinas tortas, andava sobre o meio fio. Não sabia se alguém havia esquecido de lhe contar a famosa regra ou se ela fazia questão de evitá-la com firmeza. O fato é que, em qualquer circunstância, podiam contar uma com a outra. 

Num dia desses de tormenta completa com a própria realidade, Ágata ligou para ela. Acabaram se encontrando no fim do dia, um entardecer morno, mas não insuportável. Uma daquelas tarde que a gente pouco dá bola e depois passa a ser

uma das mais importantes da existência da gente, sabe? Elas falaram por horas e horas sem parar, o melhor passatempo possível para as duas. Quando o céu já estava começando a desbotar o alaranjado para dar lugar às primeiras estrelas visíveis, Morgana disparou: 

“Se concentra no que é possível agora, não no que é perfeito. Essa coisa de perfeição só existe no mundo dos desenganados, meu amor.” 

Ágata sequer havia pensando que podia repensar as leis do jogo. Nunca, nem por um minuto. Porém, também havia ignorado que a porcaria da regra poderia não funcionar. E não estava operando, de fato. Sua situação atual era a prova viva. 

Seria uma mentira revelar que as mudanças ocorreram no dia seguinte, mas elas vieram à tona. Nenhuma onda, afinal, permanece tempo demais parada. Ela acabou em muitas vias de mão dupla mentais porque, convenhamos, é difícil quebrar regras alimentadas por toda uma existência. 

Só que aos poucos, Ágata fez uma constatação importantíssima, sim senhor: ela não tinha vocação alguma para uma vida de ouro. Foi aí que, nas palavras da própria família, ela “incorporou”. Algo como vestir, mas não uma roupa, e sim um espírito novinho em folha. Para algumas pessoas isso podia ser ofensivo, mas Ágata estava gostando. Ágata estava amando, na verdade, especialmente pelo fato da pele por debaixo do tecido ser sua. 

Tudo tinha começado há umas três semanas, mais especificamente numa quarta-feira sem graça alguma, tal qual qualquer outra. E nossa, que canseira. Preguiça daquela gente toda achando que sabia do que ela precisava. Todo dia era assim: se não amanhecia escutando o quanto devia sorrir mais, amar mais, se doar mais, anoitecia sabendo o quão incapaz foi de preencher essas expectativas. 

Então Ágata apertou o que a Morgana chamava de Botão do Louco. Isto significa passar a viver tal qual o conhecido Arcano número 0, ou 22 para os mais íntimos. Viver deliciosamente, olhar outros horizontes, jogar-se em direção às novas experiências. Início e fim de jornada; se começa o ciclo como Louco, jovem, sagaz, espontâneo, e se finaliza com ele também, ainda de espírito leve, mas alma astuta após despertar para o Mundo. 

A amiga disse-lhe que havia sonhado com este momento.

Ágata não foi insensata. Planejou uma mudança de carreira gradual porque lhe aterrorizava a ideia de depender de alguém. Encerrou a relação impregnada por tantas toxinas diferentes. Começou a prestar mais atenção no que seu próprio coração pedia ao invés de subjugar-se a tantas e tantas batidas alheias. 

Foi quando começou a aparecer confortável em si nas reuniões de família, fosse de corpo ou de alma, que passou a ser chamada de cabeça de vento. Como podia uma guria daquelas jogar tudo pro ar? Todo quebra-cabeça bem construído, montado peça por peça durante uma vida inteira? Ah sim, pois aparentemente a vida terminava ali, aos 30. 

Os comentários incomodaram durante algum período. Mas sabe? Ágata até que começou a gostar de ser uma cabeça de vento. Se ser vento significava ser também movimento para a própria vida, tudo bem. Queria mais era voar, descansar na própria brisa, ser perfeitamente revolucionária na forma de se expandir. 

Ágata queria ocupar espaço tal como cada fração de oxigênio preenche um corpo. Seria seu próprio suspiro, as legítimas folhas a voar no outono, o vento frio do inverno. Tanto fazia, desde que nunca mais fosse movida a ouro. Agora, só sabia querer flutuar mais e mais para o céu da sua liberdade. 

Nadieli M. Kutacz


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