a mulher multitarefas: o desafio do cuidado

4 comentários

 

     Você conhece alguma mulher com 8 braços, dez empregos, casas com 20 cômodos para serem arrumados e dias com 98 horas de duração? Eu conheço algumas. Recentemente me reconheci como uma. Comecei a perceber ao redor como mulheres multitarefas funcionam, como elas se comportam, onde vivem, do que se alimentam. 

     A demanda por mulheres multitarefas é uma herança do Patriarcado colonial, e surgiu ainda no comecinho da história da humanidade. Por coincidência, na mesma época, surgiram os “homens sem tarefas”. Com as primeiras estruturações familiares da sociedade ocidental, o ser humano deixou de ser nômade e precisou se fixar em um lugar seguro para se reproduzir e prosperar. As tarefas então ditas femininas, como a criação dos filhos, o cultivo da terra, o cuidado dos animais e a espera resignada pelo sustento foram designados: surgiram então os papéis restritos ao universo feminino. Com o passar do tempo, o feminino começou a acumular funções invisíveis e subestimadas. Afinal, sair para caçar o sustento com certeza era uma tarefa muito superior ao cultivo de vegetais e ao cuidado dos filhos - Eles disseram.

     Nessa mesma época, mulheres passaram a ser vistas como posse. Filhos também. A função social do cuidado passou a ser cristalizada como pertencente ao Universo feminino e apenas muito recentemente começamos a questionar a necessidade de democratizar o cuidado. Todos precisam de cuidados, mas por alguma razão ainda não encontrada, poucos se dispõe a cuidar. Coube à mulher acumular todas as estruturas sociais associadas ao cuidado. Você pode fechar os olhos e tentar imaginar uma figura quando eu falo sobre determinadas profissões e imediatamente enxergar mulheres ocupando funções x e homens ocupando cargos y. Esse esquema está profundamente enraizado no imaginário coletivo.

     Já faz algum tempo que começamos a aglomerar funções: atualmente, votamos (no Brasil, fazem apenas 89 anos que esse direito foi conquistado), trabalhamos (antes da I e II Guerras, isso era proibido), podemos escolher (até certo ponto) com quem iremos nos relacionar (quem lembra quando a família escolhia o destino das jovens solteiras?) e apesar de não estarmos mais confinadas no espaço doméstico, continuamos sendo responsáveis pelas tarefas que amontoamos há milhares de anos. Mesmo com tantas "liberdades" adquiridas, continuamos tendo o direito ao autocuidado e à emancipação verdadeira negados. O primeiro brinquedo de uma menina continua sendo uma boneca ou um fogão. O negar o cuidado às outras pessoas (escolher não ter filhos, não aspirar o casamento) ainda é considerado egoísmo ou amargura. 

     Mesmo quando a desigualdade social permite que o cuidado seja terceirizado, continuamos contratando mulheres para desempenhar o cuidado. Minha avó paterna, mulher negra que sobreviveu às mazelas da desigualdade racial e socioeconômica, executou o papel de figura materna ao cuidar de crianças brancas, ao mesmo tempo em que sua presença foi negada à seu filho. Mulheres negras precisam empilhar funções de cuidado ao mesmo tempo em que são vítimas da opressão, pois a pele do cuidado terceirizado tem cor. O “não precisar cuidar” é um privilégio (branco) que reflete a desigualdade histórica no Brasil e remonta o cenário colonial ainda latente na sociedade atual.

     Ser uma mulher multitarefas é repetir o padrão imposto a todas as gerações de mulheres que vieram antes de nós. Eu sou fruto de uma linhagem de mulheres multitarefas. Minha avó teve três empregos, dando aula em três escolas ao mesmo tempo. Minha mãe trabalhou em três hospitais ao mesmo tempo. As duas tiveram três filhos enquanto estavam na faculdade. As duas criaram três crianças enquanto trabalhavam e se desdobravam entre casa e trabalho. Eu não consigo fugir da minha natureza multitarefas. É natural e intrínseco à minha personalidade buscar mil atividades para desempenhar ao mesmo tempo.

     O meu caminho é marcado por gerações e gerações de mulheres que fizeram mais do que deveriam por todos ao redor. A mulher multitarefas em mim honra as outras mulheres que acumulavam funções para conseguir sobreviver aos desafios impostos e aos cenários nos quais estavam inseridas. As vezes acho que vivo numa realidade paralela em que os dias tem 36 horas. 

     A essa altura do texto, você deve estar se perguntando “como toda essa viagem na história e ancestralidade se relaciona com autocuidado”? e a resposta está mais explícita do que gostaríamos de admitir. Quem cuida das mulheres que cuidam de todo mundo? Se você observar as mulheres multitarefas ao redor, vai perceber que pouquíssimo tempo dentro dessas 62 horas do dia é destinado ao autocuidado. Não nos olhamos no espelho, a não ser que seja o momento de assimilar as autocríticas quando não nos encaixamos no padrão. Não nos preocupamos com nossa saúde, a não ser que seja algo gravíssimo que comprometa nossa funcionalidade frente às necessidades das pessoas ao redor. Não nos ouvimos, não nos respeitamos, não descansamos.

     Para quebrar o ciclo de auto sacrifício, o único antídoto é direcionar para si mesma o cuidado que se esgota ao ser entregue ao outro. Validar a si mesma, quebrando o ciclo de busca pela validação externa. Abrir mão do olhar e do incentivo, trazer para si a responsabilidade de entregar o amor e o carinho que se espera do outro. Serrar as correntes que aprisionam no cuidado compulsório e inerente ao feminino, revolucionando o conceito de cuidar não por obrigação, mas por escolha. Reconhecer o privilégio que é não precisar cuidar. Abraçar quem não enxerga a dissociação entre o papel de cuidadora de si mesma, não percebendo outra motivação na vida a não ser a própria utilidade.

     Mulheres que cuidam de outras mulheres quebram o ciclo. Uma comunidade que pratica o cuidado como forma de revolução é a chave para encerrar essa repetição. Uma sociedade que divide a responsabilidade e o peso do cuidar deve ser o objetivo final de cada atitude tomada em nome de um movimento que busca igualdade. Cabe a todas nós abrir espaço para o questionamento do cuidado. O diálogo precisa existir, a desconstrução precisa acontecer.

     Essa reflexão precisa atravessar a nossa geração (e se você está lendo esse texto, isso é reflexo de algum privilégio, não é mesmo?). Essa conversa precisa atingir os homens sem tarefas ao seu redor. Esse cuidado precisa chegar às mulheres fazendo muitas coisas ao mesmo tempo dentro da sua casa, na sua família. Esse texto precisa atravessar você e as suas relações. Recentemente, perdi uma mulher multitarefas e o espaço vazio ocupado por ela ainda grita no silêncio de todas as multitarefas que ficaram por fazer. 

 

Por Celina Knust.

4 comentários

Lucilene
Lucilene

É transgeracional mesmo. Minha avó, minha mãe, eu…onte tem uma mulher sobrecarregada tem um homem folgado. Cuidamos tanto dos outros que boa descuidamos. Comecei a acordar a pouco tempo e voltei a me cuidar de todas as formas, a deixar que cada um assuma suas próprias responsabilidades.
Está tão estruturado e normalizado que agimos inconscientemente. Despertar é libertador.

Florence Damasceno Da Silva
Florence Damasceno Da Silva

Gratidão e orgulho, por nos dar voz,

Maria Silvina Knust
Maria Silvina Knust

Sem retoques, perfeito, profundamente cristalino… COMPARTILHAR E VIVER, será minha missão.

Mônica
Mônica

Admiro sua inteligência e sua forma de escrever com o coração! Um texto que me tocou intimamente! Obrigada por isso! <3

Deixar um comentário

Comentários serão analisados antes de publicados!

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de privacidade e os Termos de serviço do Google se aplicam.