A história da minha bunda

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(Ou como eu fiz as pazes com o meu corpo)



Ha alguns meses assisti um vídeo da Rafa Brites contando sobre a relação dela com a bunda dela, e como isso influenciou até hoje a relação que ela tem com o corpo dela. Quando eu assisti eu pensei: caramba, parece que sou eu falando.


É importante começar o texto dizendo que eu tenho plena consciência de que estou falando do lugar de uma mulher branca totalmente dentro dos padrões, exclusivamente sobre a minha experiência, e também que esse texto pode conter alguns gatilhos pra quem ta enfrentando ou já enfrentou algum processo relacionado a distúrbios alimentares.


Eu tenho descendência armênia. Sim, que nem a Kim Kardashian. Sim, quase todas as mulheres armênias têm um bundão, e eu não escapei.

 

Eu fui uma criança, digamos assim, peculiar, e eu não me entendia como mulher na minha infância, eu me entendia como criança, nunca tinha parado pra pensar se era mulher ou homem. E um dia eu descobri que era mulher. Aos 8 anos, quando outras crianças começaram a comentar sobre a minha bunda. Me chamar de tanajura, lela bundão, bunda de saúva, enfim, crianças podem ser cruéis. Foi assim que eu entendi que eu era mulher.


Minha bunda tem essa carga pra mim: ela me escancarou que eu sou mulher.


Então eu comecei a me sentir inadequada, e comecei a me esconder embaixo de camadas e camadas de roupas, calça, moletom na cintura não importava quantos graus estivessem fazendo. E quando eu fiz 12 anos, decidi que iria emagrecer. Sempre fui uma criança gorda e não me importava, mas na adolescência eu não aguentei e cedi à pressão. Mais do que isso: deixei ela me consumir. 


Comecei a contar calorias e ir na academia todos os dias com 12 anos, lembro de assistir meus primos brincando na piscina da janela da academia e eu malhando, perdendo essa parte da minha vida para me adequar. Eu emagrecia, emagrecia, e minha bunda continuava grande. 


Eu não conseguia comprar calça porque ou a calça não passava na minha bunda, ou ficava gigante na cintura, então eu escolhi comprar as calças que não passavam na minha bunda pra ter como meta emagrecer até elas caberem. Eu comecei a usar as minhas roupas como uma forma de competir comigo mesma, de me auto depreciar.


Foi assim que, aos 13 anos, eu entrei num processo de anorexia, que virou bulimia, uso de laxantes, e minha vida passou a girar em torno de emagrecer e perder a bunda. 


Para mim era muito confuso porque eu me sentia muito inadequada, mas ao mesmo tempo me falavam que todo mundo queria ter uma bunda que nem a minha. Ao mesmo tempo eu via, com 13 anos, os homens olhando minha bunda e eu achava que minha bunda era vulgar. Como é possível que uma parte do corpo de uma criança seja vulgar?


Eu fui emagrecendo, emagrecendo, passava o dia inteiro fazendo exercícios e contando calorias, tinha sempre que comer menos calorias do que no dia anterior, criando um ciclo de competição comigo mesma de comer cada vez menos, e esse ciclo só podia resultar em um destino. Você sabe qual.



Até que no fim dos meus 14 anos a gente teve que ler um livro pra escola, chamado Alice no Espelho, da Laura Bergallo, que conta sobre uma menina que tinha anorexia e outros distúrbios alimentares. Eu fui lendo e me reconhecendo, e entendendo o que tava rolando comigo.  (Essa é a importância de falar sobre esses temas com crianças e adolescentes: pode salvar vidas.)


Enfim, eu consegui sair dessa situação, eu não pude ter um suporte psicológico na época, então tive que me virar, mas consegui. Aos trancos e barrancos, e foi assim que eu comecei a aceitar meu corpo, na marra, porque ou eu aceitava ou eu morria.


Eu aceitei o meu corpo inteiro, até que chegou na minha bunda. Até hoje, na verdade, é difícil pra mim, ainda me sinto confusa, inadequada, vulgar, mas eu tomei a decisão de amar ela na marra. Tatuei um coraçãozinho nela pra sempre que eu olhasse no espelho de um jeito cruel, eu olhasse o coração e conseguisse olhar com amor.


Nesse processo de superação dos distúrbios alimentares, eu fui, inconscientemente, durante esses 10 anos, largando todas as roupas que me fizessem sentir inadequada, todas as roupas que gerassem algum sentimento de competição comigo mesma. Na verdade essa a maior motivação para eu criar a Lela Brandão Co.


Eu queria um guarda roupa que fosse inteiro pensado para caber no meu corpo, e não o meu corpo caber nele. As calças da marca são todas com elástico, soltas, confortáveis, porque a gente merece se sentir confortável e livre no nosso próprio corpo. 


É por isso que eu digo tantas vezes: uma mulher confortável em si é uma revolução.


Por fim, trago um trecho do livro Mulheres que Correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola Estés, pra gente refletir.


"Se lhe ensinarem a detestar o próprio corpo, como poderá ela amar o corpo da mãe, que tem a mesma estrutura que o seu? - ou o corpo da avó, ou das suas filhas também? Como poderá ela amar os corpos de outras mulheres (e homens) próximas a ela que tiverem herdado o corpo dos mesmos antepassados? Semelhante agressão a uma mulher destroi seu legítimo orgulho de parentesco com sua própria gente e lhe rouba a alegria natural que sinta por seu corpo, não importa qual seja a altura, tamanho ou forma. No fundo, a agressão ao corpo da mulher é uma agressão de longo alcance que atinge tanto os que vieram antes dela quanto os que chegarão depois."”


Sigamos resistindo às forças que nos incentivam a odiar nossos corpos. É nossa única saída.

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isabelle
isabelle

Oi Lela, boa tarde. Vim através do you tube e amei de verdade sua proposta aqui. Eu tenho enfrentado um conflito desde minha puberdade quando meus seios se desenvolveram bem menos que o (normal). tentava usar sutiãs bem maiores do que necessário, pra não me sentir esquisita. Agora eu me gosto mais e me aceito um dia mais, outro nem tanto mas chegarei lá. Ainda resisto ao me deparar com outras mulheres, com seios em tamanho mais padrão, mas ao conhecer marcas como a sua me sinto mais encorajada a ser livre, a não ter vergonha de ao usar um top como os seus e nao ter aquele volume, não me sinta constrangida. Obrigada, com certeza vou olhar para meu guarda roupas diferente, vai ta cheio de coragem e beleza e não de dor.

Ana Schaan
Ana Schaan

Eu adoro esse vídeo do seu canal, Lela. Também passei (acho que todas nós) por esses olhares masculinos maliciosos ainda criança. No meu caso, era por conta das minhas coxas. Hoje me sinto super insegura com meus braços… Adorei a ideia de fazer uma tatuagem fofa, pra gente olhar sempre com carinho! Vou considerar fazer também 🥰

Lucía
Lucía

Obrigada por compartilhar sua experiência. Me identifiquei. Eu tb amarrava moletom na cintura e até usava blusas largas para não mostrar que eu tinha mais peito que as outras meninas da minha idade. Com 11 anos de idade – uma criança – os homens adultos já me olhavam e os meninos riam do meu peito enorme. Ser mulher é foda.

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